2005-08-31

Dostoiewski (III)

Raskolnikóv, o assassino de 'Crime e Castigo', acredita ser um dos escolhidos (ver post anterior).

Mata porque acredita ser esse o meio para levar avante as suas ideias, o seu ideal, o seu plano de vida. Escolhe a sua vítima, uma velha agiota que, qual piolho sobrevive a sugar o sangue dos outros, dos deserdados da vida como o é Raskolnikóv, de entre os que moralmente não merecem viver.

Dostoiewski fá-lo intimamente bom, alguém que acredita em si e se preocupa com os outros, mas retira-lhe o futuro, nega-lhe a categoria de escolhido. Ora, não o sendo, o assassino terá obrigatoriamente de assumir a sua culpa e ser julgado pela sociedade. Mas a pena imposta por esta só resultará se conduzir o criminoso ao arrependimento, o que não parece acontecer com Raskolnikóv.

Rapidamente o assassino vê-se confrontado com os seus dilemas morais e logo de seguida com a sua consciência. O grande problema é que esta não o acusa, e quando a consciência não acusa não surge o arrependimento. Como ser superior, escolhido, o arrependimento só poderá ser assumido perante alguém que lhe seja superior. Ele não vê isso nos que o rodeiam.

Mas, também para o assassino de Dostoiewski a redenção existe, vem pelo sofrimento, essência da condição humana. É aqui que entra Sônia, jovem prostituta, corrompida para salvar a família da inacção causada por um pai viciado no álcool. Sónia é o ser superior, que se eleva pelo sofrimento. É ela que leva Raskolnikóv a confessar, é ela que o assassino acaba por respeitar, por amar, e é perante ela que se redime do seu crime.

Simplificando o assunto, para o mestre russo poderiam existir duas opções para limpar as consciências: o arrependimento ou o sofrimento. O arrependimento, sabemos nós, nem sempre funciona, neste mundo entupido de homens superiores. Por outro lado, o sofrimento custa. Enfim, aceitam-se outras propostas.

2 Comments:

Blogger maria_arvore said...

Outra proposta: o amor.

Porque é o amor por Sónia que motiva Raskolnikóv a redimir-se.

Embora julgue que Dostoiewski queria glorificar aqueles que eram considerados marginais da sociedade e indignos de serem elevados à categoria de 'heróis' de um livro, como neste caso é um assassino e uma prostituta. E levantando a questão de que são as más condições de vida em que viviam que os levaram a fazerem o que faziam. E também aí Dostoiewski menciona que o fazem por amor aos outros.

3:38 da tarde  
Blogger guardador_de_rebanhos said...

Dostoiewski foi sem dúvida um escritor preocupado com a realidade social que o rodeava, mas o que me cativa nele é mais a densidade psicológica das suas personagens, que me surpreende e me fascina a cada passo, a cada linha.
Quanto ao amor Maria, pode pô-las a brilhar, mas não lava as consciências.

4:10 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home