2005-01-28

Harmonia e Honra

Algures, perdido no tempo da minha adolescência, pausando entre Kafka e quejandos, recordo-me deliciosamente de ter lido Xogun de James Clavell, tradução portuguesa claro. Para este conseguido romance, o cunho de best-seller e a adaptação televisiva estavam no adro.

O que livro nos relata são as aventuras e desventuras do (pseudo) primeiro europeu que viveu no Japão, por alturas do Xogunato, imperialismo clássico, onde a defesa da honra e o respeito pela harmonia do outro se equilibravam. Perguntam-me porquê este romance, um best-seller, tão distante do cânone. De facto a sua relevância para esta minha história é diminuta. Dele apenas pretendo um episódio que me ficou na memória, o qual passo a relatar:

"O senhor XY1, inglês, (não me recordo do nome das personagens), é hospede de uma família japonesa, numa casa de paredes de papel, como manda a tradição anti-sísmica das ilhas em causa. A meio da noite apercebe-se que o senhor da casa, chamemos-lhe senhor XY2, samurai dos mais temidos do Japão, perito em golpes finos de espada, se entretém a espancar a esposa, fina flor oriental, a senhora XX. XY1 que não sabia o que era tomar banho mas que era empenhado na arte do cavalheirismo, irrompe pela porta ou pela parede (afinal era de papel), apanha XY2 de surpresa e lança-o para fora de casa, ralhando com ele em inglês, o que para o caso podia ser chinês. A tensão aumenta, XY2 está no terreiro com a mão no punho da sua espada, XY1 está nas escadas a aguardar o golpe que se afigura mortal e a pensar que os portugueses tinham razão quando diziam que "entre marido e mulher ninguém mete a colher" e, por último, XX está de prantos. Ao fim de uns minutos XY2 avança, espada na mão, XY1 treme mas não arreda pé e XX continua de prantos. Final da história, XY2 lança-se aos pés de XY1, que por acaso tinham sido lavados por uma dilecta moça XX2, a qual não é chamada para esta história, e, oferecendo-lhe a espada, oferece-lhe também a vida, porque mais importante que a sua honra (o que ele não diz, mas que se conclui do episódio) é o ter perturbado a harmonia do seu hóspede."

A reacção do japonês é totalmente inesperada para o inglês, o qual não se sentiu minimamente incomodado com o barulho provocado, mas sim com o tipo de barulho. O seu silêncio era algo a que não dava valor e como tal era para si completamente contra-natura pensar que este pudesse valer a vida de um outro homem.

O livro de James Clavell, de uma forma incipiente mas inteligente, conseguiu alertar-me para esta questão básica das diferenças entre o ser oriental e o ser ocidental.

Quantos de nós se preocupam em preservar, em honrar, a harmonia dos outros? Quantos de nós reagiríamos como o senhor de guerra japonês, habituado a traçar com o fio da espada inúmeros conterrâneos, mas envergonhado por ter perturbado o sono de um bárbaro. Os tempos eram outros, dir-me-ão, provavelmente poucos japoneses se comportariam assim nos dias de hoje. E afinal trata-se apenas de um romance.

É claro que concedo esses argumentos, mas o que está aqui em causa é mais que uma banalidade, que um fait-divers, que uma diferença mínima entre duas civilizações. O oriental, movido pelas suas estranhas religiões e credos, aceita-se no silêncio e como tal é aí que aceita, e se aceita nos outros. Para o ocidental o silêncio é dúbio, é sinal de secretismo, indiferença, e como tal deve ser combatido. E se a palavra cria, o silêncio não cria, o silêncio apenas preenche a maior criação da história do mundo, o Homem.

1 Comments:

Blogger maria_arvore said...

O respeito pelos outros é, na minha modesta opinião, o contrário do umbigo. Seja ou não silêncio. Na dicotomia oriental-ocidental, os primeiros fazem silêncio para «verem» os outros e os segundos, tentam omitir os outros do seu mundo.

(tenho de ver se arranjo maneira de te pôr a espada nas mãos; era um favor que fazias ao portugueses ;))

2:46 da tarde  

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