2005-01-17

Escrita e ideologia

O séc XX registou romancistas políticos importantes. Talvez as necessidades da época assim o ditassem. Na América John Steimbeck descreveu a agonia da dimensão humana às mãos do capitalismo. É certo que Steimbeck acreditava nas dicotomias utópicas, nos idealismos, "socialismo", "comunismo" e em contraponto "capitalismo". Mas, pergunto eu, o que nos dão os escritores hoje em dia, em troca das utopias?

Serei eu que ando absorto, adormecido, contente dentro dos meus -inhos? Talvez o seja. Mas será que ainda existem escritores políticos, defensores de ideologias, propulsores das mesmas, com capacidade de motivar multidões e ultrapassar a barreira da política que tão logo os procura absorver?

Não o creio, em todo o mundo serão poucos e assumidamente irrelevantes. Quando um autor disposto a acordar, chocar e quebrar os nossos preconceitos através da sua escrita (falo de Rui Nunes) afirma que tem os leitores que quer, o essencial da sua mensagem é a sua despreocupação em passar qualquer mensagem que seja aos não convertidos. Ora, sempre ouvi dizer que é fácil pregar aos convertidos.

Que dizer dos repórteres encartados que acompanham um exército de invasão? Não constituirão eles uma ameaça ao nosso equilíbrio? E poderemos fugir deles? Hoje em dia lidamos sobretudo com informação ao segundo. Pensamos ter o conhecimento, a sabedoria na sua totalidade, mas a morfologia diz-nos que a totalidade deu origem ao totalitarismo. Não é na totalidade que reside a liberdade, mas sim no quebra do prato da informação em mil pedaços, impossíveis de colar, de reparar, de conciliar.

E nós, pobres leitores, perdidos num meio em que finalmente sabemos da inexistência da totalidade da verdade, carecemos de guias, de pessoas credenciadas, escritores diplomados pela vida que saibam preencher as nossa questões, as nossas indecisões.

Mas numa realidade vivida a plena velocidade, irrespirável para asmáticos, a complexidade atinge-nos em cheio e impede-nos de olhar em frente e reconhecer o certo do errado, se é que tal conceitos existem, ou deviam existir, (não deveriam até ser proscritos?).

Mas será disso que precisamos, de alguém da escrita que nos faça ver o que é elementar no meio de todo o ruído com que displecentemente nos deixamos preencher? Talvez o seja. No entanto o que sinto é um galopar dos acontecimentos à minha frente e julgo ser esse mesmo galopar que impede um escritor de os acompanhar. Acredito que o seja, sei que no mundo se vive a uma velocidade sem rival em tempos idos e que o fundo do poço, negro, está sempre apenas a centímetros de distância.