2012-06-19

OMG


Ando a reler "O Ano da Morte de Ricardo Reis"... o meu Saramago favorito... 


Na realidade entendo-me mais com o "homem natural" de Alberto Caeiro, do que com o
estoico Ricardo Reis, mas a este meu condicionalismo filosofo-heteronímico... pontapé gramatical, semântico, e no malfadado acordo... sobreviverá a obra do mestre.

Com um olho bem aberto, e outro meio fechado… a leitura é um poderoso narcótico, anestesia de
prazer… no meu sacrossanto quarto… soa bem… ando por ali perdido, página
puxa página, percorrendo a Baixa com o odírico, até que um alinhamento de espaços me
desperta:

"Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir...", escreveu o laureado!

Perspetivei logo ali uma rara epifania. Não aconteceu, não que a bela frase não fomente a
Inspiração… ou que a inspirada frase não transporte a Beleza… mas talvez porque não tinha
que acontecer.

Mas ficou cá, a soar, como os sinos da aldeia do Pessoa… “que já a primeira pancada tinha o
som de repetida”… e não pude evitá-lo, publiquei-a no meu mural… adoro esta palavra, mural, quem a adaptou ao facebook merecia, no mínimo, um considerando… que é onde todos vamos descobrindo a perfídia dos outros e o nosso próprio injustiçamento, sabedoria que brota de algumas apps. bem intencionadas.

Muito se tem pedido aos deuses. Caso existam… no que creio, evidentemente, pois no mais profundo do meu ser... como se costuma dizer... sinto a sua memória… muito eles nos têm
concedido, e muito eles nos têm negado, ou não fossem deuses, que não existem para cumprir
o nosso destino.

Mas nada pedir aos deuses, é como largar um vício, e quando se larga um vício, a vida fica um
pouco só, só um pouco, mais monótona, sem sal...

2012-05-22

Inacção

Finalmente entendo o porquê de me agarrar ao sofá, enquanto sigo pela parede as sombras da minha rua.

De agarrar um livro por abrir, e só ler uma página, e pousá-lo naquele monte que o tempo arrumou...
De ler sempre o mesmo livro!


De acordar manhã cedo, e me sentar na cozinha a olhar pela janela, olhar pela janela a ver o tempo, e ligar o computador só para ver o que vi pela janela. 
De querer poupar tempo... 


De me arrastar até ao quarto depois de banhado, e barbeado, e perfumado, sabonete de morango, creme de limão, e vestir a roupa alinhada de véspera, para poupar tempo hoje, porque o de ontem já passou!


De abrir a porta e descer as escadas, enquanto me esforço por lembrar o carro, tantas vezes o perdi, como ao tempo.


De seguir em frente até à curva...
...contracurva, campo grande, 2º andar, café, navegar, escrever, falar, descer, comer, café, subir,  navegar, escrever, falar, descer, contracurva, curva, campo de ourique, 3º andar, navegar, escrever, falar, comer, café, ler,  deitar, sem amar, sonhar.


E porque acordo no dia seguinte a pensar a razão de toda esta rotina, e sentado na mesma cozinha, e olhando pela mesma janela, finalmente entendo que tenho sempre tanto para fazer, mas que é tudo secundário...

2012-05-20

Segundo primeiro post

O primeiro post neste blog foi fácil.
O primeiro post neste blog após alguns anos é mais difícil, daí ter-me decidido por um pequeno exercício de introspecção...

"Se ao menos eu pudesse parar, e rever toda a minha vida num só compasso, sem espera...
Será que me importaria mais com o importante, relevaria enfim o relevável, apagaria com ousadia o indistinto, e me levantaria de novo, como o vento?
Ou será que me fecharia sobre mim mesmo, na segurança do caminho já percorrido?"

Ok, está feito...

2005-08-31

O subterrâneo de veludo
















I'm sticking with you
'Cos I'm made out of glue
Anything that you might do
I'm gonna do too

'I'm Sticking with you'
The Velvet Underground

Andava eu pelo Camdem Market, uns vinte anos atrás, e andavam também por lá uns tipos, proto-punks de banquinha, a vender cassetes piratas de concertos, naquele tempo havia um em cada esquina. Agora com as novas tecnologias acabou-se-lhes o negócio, I presume.

Eu parava em todos e olhava deliciado as cassetes. Babava-me, onde mais iria encontrar um concerto dos New Order acabadinho de acontecer ontem. Portuga pobre, pedi para ouvir uma cassete dos Velvet Underground ao vivo algures, não fazia tenção de comprar. O gajo, com o cabelo verde espetado e cara de bebé, e aquela pele sempre muito branquinha e oxigenada, mudou a cassete que estava a ouvir no seu leitor portátil, qualquer coisa de gótico, tipo Sisters of Mercy antes do vocalista ter deixado de fumar.

Ouvi um bom bocado e depois disse ao gajo que podia tirar, o gajo disse que não, eu não estava a perceber nada, aqueles gajos são um bocado parvos e teimosos e eu dizia que tirasse, não estava interessado, se calhar queria que eu comprasse a cassete, ok já tinha ouvido e ele só dizia não, era como falar para uma parede até que no meio do seu desprezo me passou a mensagem que os Velvet eram muito bons e queria continuar a ouvir.

O que é certo é que os Velvet continuam a consumir grande parte do meu tempo de antena. Grupo revolucionário nos anos 60, hoje poucos são os músicos que arriscam romper as barreiras musicais tal como Reed, Cale e quejandos o fizeram no seu tempo. A rude beleza da sua música continua a atrair-me, a comover-me. Abafa os meus dias negros com a sua distorção e irradia a sua calma melódica quando flutuo entre as nuvens, nos meus dias mais calmos.

A quem não conheça aconselho a audição de I'm Sticking with You, do albúm VU, um perfeito orgasmotron tal o prazer que me proporciona sempre que a oiço.

Dostoiewski (III)

Raskolnikóv, o assassino de 'Crime e Castigo', acredita ser um dos escolhidos (ver post anterior).

Mata porque acredita ser esse o meio para levar avante as suas ideias, o seu ideal, o seu plano de vida. Escolhe a sua vítima, uma velha agiota que, qual piolho sobrevive a sugar o sangue dos outros, dos deserdados da vida como o é Raskolnikóv, de entre os que moralmente não merecem viver.

Dostoiewski fá-lo intimamente bom, alguém que acredita em si e se preocupa com os outros, mas retira-lhe o futuro, nega-lhe a categoria de escolhido. Ora, não o sendo, o assassino terá obrigatoriamente de assumir a sua culpa e ser julgado pela sociedade. Mas a pena imposta por esta só resultará se conduzir o criminoso ao arrependimento, o que não parece acontecer com Raskolnikóv.

Rapidamente o assassino vê-se confrontado com os seus dilemas morais e logo de seguida com a sua consciência. O grande problema é que esta não o acusa, e quando a consciência não acusa não surge o arrependimento. Como ser superior, escolhido, o arrependimento só poderá ser assumido perante alguém que lhe seja superior. Ele não vê isso nos que o rodeiam.

Mas, também para o assassino de Dostoiewski a redenção existe, vem pelo sofrimento, essência da condição humana. É aqui que entra Sônia, jovem prostituta, corrompida para salvar a família da inacção causada por um pai viciado no álcool. Sónia é o ser superior, que se eleva pelo sofrimento. É ela que leva Raskolnikóv a confessar, é ela que o assassino acaba por respeitar, por amar, e é perante ela que se redime do seu crime.

Simplificando o assunto, para o mestre russo poderiam existir duas opções para limpar as consciências: o arrependimento ou o sofrimento. O arrependimento, sabemos nós, nem sempre funciona, neste mundo entupido de homens superiores. Por outro lado, o sofrimento custa. Enfim, aceitam-se outras propostas.

Dostoiewski (II)

O personagem principal de 'Crime e Castigo', o desafortunado e delirante Raskolnikóv, é um assassino. Mata em nome do seu ideal, o de dar a si próprio os meios de mudar o mundo para melhor. Acredita ser um dos escolhidos.

Por aqui ecoa uma ideia, soberanamente explanada pela pena do Dostoiewski. É uma ideia fria, crua como o gume de uma faca, cruel. Segundo ela, existem dois tipos de homem, os normais, inseridos na sociedade e que devem ser julgados pelas leis desta, e os escolhidos, os eleitos, sujeitos supra-sociais, os quais obedecem apenas ao dever para com os outros e não às suas leis. Na 'Genealogia da Moral', Nietszche movimenta-se por caminhos semelhantes, o super-homem cria as suas próprias leis morais.

Esta ideia apela à relativização do acto, mesmo o mais abominável, mesmo o mais monstruoso. Quando consumado por um dos escolhidos, ser superior, providencial, fecundado pelo conhecimento do bem geral, esse acto só por ele pode ser julgado. Dostoiewski escreve muito próximo de Napoleão, provavelmente tinha-o em mente. É claro que Hitler no seu delírio ter-se-á baseado num princípio semelhante quando decretou a solução final para o caso judeu.

Não estou a apelidar Dostoiewski de nazi, seria ridículo, o autor e a obra são distintos, a obra pertence-nos quando a lemos e esta é apenas uma migalha que retirei do amargo bolo de mel que é 'Crime e Castigo'.

A História está cheia de escolhidos. Do Khan a Salazar, de Estaline a Mao, milhões foram sacrificados em nome de um suposto bem social comum. Nas democracias actuais os escolhidos pululam num pântano de populismo, incólumes aos mecanismos de defesa das mesmas. Paradigmático é o caso de Bush o qual se arvorou saber do que carecem os herdeiros da antiga Babilónia.

Dostoiewski escreve do seu tempo mas a sua escrita é intemporal na sua humanidade, tal como deve ser.

2005-08-30

Dostoiewski (I)

Acabei de ler 'Crime e Castigo' de Dostoiewski. Por vezes fixo-me num autor e por ora ando agarrado ao grande mestre russo.

Desde sempre dedicado às letras, o meu grande pecado é o de não conhecer todas as línguas do mundo. Passo a explicar:

Tradutor em potência, cedo reneguei aqueles que fazem dessa arte a sua profissão, pois com o evoluir dos meus conhecimentos em determinadas línguas, sobranceiramente decidi ler obras literárias apenas no original. Rapidamente essa decisão condicionou a minha leitura a textos em português, inglês e pouco mais.

Enfim, fui castigado, e o meu castigo foi o de só agora ter tomado contacto com a obra do grande mestre russo. Ainda me esforcei um pouco, tive uma passagem falhada por aulas de russo, desisti, cirílico não é comigo e muito menos à mistura com declinações.

É por isso que quero deixar aqui os meus agradecimentos a Nina Guerra e Filipe Guerra, notáveis tradutores do russo, os quais com o seu saber e arte, aliados ao génio de Dostoiewski, me têm proporcionado ao longo deste ano alguns dos grandes prazeres literários com que a vida me tem prendado.

Sinceramente, obrigado.

2005-08-23

What the hell, I'm feeling kinda romantic these days

To R.

John and Helen's story

Helen was exasperated, the traffic jam seemed endless. 'At this rate I won't get there on time, at nine o'clock, and he will probably leave,' she thought. 'No, of course he won't.' She was a confident and self-assured young lady and was looking forward to seeing John. It had been a while since she last dated someone and she felt something special about him. But now she was gridlocked near Campo Grande, and for the last ten minutes she hadn't been getting any closer to him.

'Well, it was too good to be true,' John thought. He had spent the last ten minutes stranded inside the tube, in the tunnel somewhere between the Praça de Espanha and São Sebastião stations. He was anxious, he liked Helen. Actually he liked her a lot and didn't want to be late on their first date. 'It took me all this time to ask her out and now this. Jesus, will this thing ever move on,' he thought, feeling like a caged bird and regretting the moment he had decided to take the tube instead of the car. But he knew that Helen was taking hers, and two cars seemed one too many.

'He looked so cute, so genuine in his denim jacket. Good looking too'. Helen remembered the first time she saw him, in the school library. He was having an argument with the clerk about a book he desperately needed and was unable to find. She jumped in, on his behalf. She was like that, impulsive. He gazed at her like she had just saved the day and smiled. 'Maybe it was love at first sight,' Helen thought and smiled to herself as the car in front of her started to move.

'She has the most sensual lips.' John was remembering when he saw Helen for the first time. It was unusual for a girl to step forward and help a complete stranger the way she did. He wanted to kiss her then but he didn't. 'Years and years of civilisation and repressed feelings,' he thought. 'Well today is the day, if I ever get out of this bloody train.' He was now heading towards the Marquês de Pombal tube station. He looked, absent-mindedly, at a girl sitting across from him. She was cute in the same way that Helen was stunning. He looked out of the window, into the blackness, thinking of Helen's beautiful dark eyes.

Now that she was going down Avª da República towards the roundabout, Helen was feeling more relaxed. It was five to nine, and she was counting on being at their rendez-vous point with no more than a ten minute delay, which she found acceptable. 'He was so shy,' she remembered seeing him later that day, at the cafeteria. He smiled at her and quickly went to sit on the other side of the room. He kept looking at her reflection in a mirror, rapidly averting his eyes every time she met his gaze 'If I had not sat at his table the following day we would still be meeting through that mirror.' The Strokes interrupted her thoughts and she pushed up the radio volume and then she noticed that she had not moved for the last five minutes and started to feel nervous and anxious again.

He remembered that day well and the magical words, 'Hi, is this seat taken?' Helen's voice sounded as sweet as sugar to him but he only managed to mumble something in response. As she sat in front of him he warmed to her and enjoyed every minute of the conversation. They began to meet every day at school and he sorely missed her at the weekends. So, almost two weeks later he decided that he could and would go further and asked her out. Now the train was stopping at the Avenida Station. John hurried up the stairs, bought some flowers: 'three red roses for luck in love,' and moved on to the meeting point praying that she would be there. It was already ten past nine.

Helen knew that she felt something for him, the minute she woke up sad on a Sunday because she knew she was not going to see him. Their meetings at school were beginning to be a pleasure and a torture at the same time. He always looked somehow distant. And then one day, out of the blue, he asked her out and here she was now, desperately looking for a parking space. 'God, I should have come in on the tube,' she thought, knowing that it was too late for that. She was growing desperate, it was already nine fifteen and she didn't want John to think of her as thoughtless. Just off the Marquês de Pombal roundabout she saw a blinking light and she hurried to the spot.

John looked at his watch. It was already twenty five past nine. 'She's not coming,' he thought, feeling frustrated but mostly sad. He was angry with himself, his mobile's battery was flat so he could not ring her. 'She's not coming,' he repeated and slowly headed towards the bus stop on the other side of the Avenida.

Finally Helen parked her car two long blocks away from the cinema. She tried to ring John but she couldn't get through to him. She hurried up 'God, all this time waiting for him to ask me out and now this happens.'

The bus was arriving. John looked once more up the road but she wasn't there. He got onto the bus, feeling bitter and promising himself that he would never fall into the love trap again. The bus was just starting to move when he spotted Helen coming hurriedly down the other side. 'Stop the bus,' he cried out loudly. The driver looked at him through the rear-view mirror but ignored him.

Helen stopped in front of the cinema. She was out of breath. 'He is not here,' she thought, looking at her hands in despair. She felt like killing someone. 'He could have waited a little. Maybe he did not come at all'. The thought crossed her mind as she looked at her watch. It was twenty to ten. She felt heartbroken.

Inside the bus John had to think fast. He jumped to the door and opened the emergency slide-door on top. He pushed the safety lever. The bus doors opened and at the same time the driver stepped on the brakes. The bus' sudden halt upset the other passengers but, as John jumped onto the street he was oblivious to the driver's complaints.

Helen was still there. She didn't know what to do. She didn't want to go home, she just wanted him by her side. 'Helen.' She recognised the voice and turned round. He was there, looking at her, smiling. She smiled back and took his outstretched hand.

They kissed.

2005-07-14

The Hitchhicker's Guide to the Galaxy

Ando a ler o The Hitchhicker's Guide to the Galaxy de Douglas Adams. O livro vai fazer 30 anos, tornou o autor conhecido.

Vem aí o filme (http://hitchhikers.movies.go.com/. O actor principal é o Martin Freeman, aka Tim, o gajo esperto do The Office, o que por si só é uma boa razão para ir ver a fita. Aliás, não sei se já repararam mas é difícil encontrar um mau actor inglês.

Douglas Adams (http://www.douglasadams.com/), autor anglófono, tal como o Tom Sharpe ou o Nick Hornby não tem pretensões a ascender ao canon, só quer que um gajo se divirta ao ser confrontado com a ironia do ser enquanto humano. Por mim tudo bem, dá-me prazer este humor que vem de dentro.

Há muitos anos li um outro livro dele So long, and thanks for all the fish. Vim agora a saber que faz parte da saga do Hitchhicker's, são quatro livros, este é o último, na altura gostei. Não havia era Fnac nem net, neste pais da treta era difícil arranjar livros estrangeiros, tive que gamar o volume a um turista, que compreensivelmente não trazia consigo os outros três.

O plot tinha a ver com golfinhos, daí o título, lembraram-se de partir um dia, eram aliens. E algures no livro parece que está a resposta para todas as nossas dúvidas e anseios, vinda directamente da entidade suprema.

Na altura era jovem, não liguei, e por isso não me lembro. Acho que vou reler...

O sono de Odin

Li isto num livro, faz anos, não me lembro do título nem do autor (mea culpa):

Algures num futuro talvez longínquo, decorre uma tremenda luta pelo poder na Valhala.
Acautelem-se cristãos, hindus e muçulmanos, os únicos deuses existentes são os viris e sanguinolentos deuses nórdicos.
Odin está velho, exilou-se na Terra, quiçá em Miami, numa casa de repouso, onde contrafeito recebe Thor e os outros em curtas audiências.
É um velho simpático quando usa fralda, mas não se iluda o leitor, continua omnipotente e omnipresente. Só já não se dá ao trabalho. Aliás, a única coisa que quer, e dela depende a sua felicidade diária, é todos os dias uma muda de lençóis, acabadinhos de passar a ferro, com goma e tudo.
Dá que pensar, não?

2005-07-05

O Cometa

Imaginem se assim fosse:

Deus a vagar no etéreo negro, partícula atrás de partícula, vento solar que enfuna as velas do destino lá longe, a milhares de milhões de qualquer unidade de medida daqui, e dos outros lados também.
Deus numa viagem infinita, a percorrer o Seu Universo de ponta a ponta, só porque sim, porque é o Seu.
Deus forte, obtuso, rígido na Sua vontade, predestinado, que não move um milímetro da Sua decisão, da rota que para Si traçou.
Deus misericordioso também, lágrimas pelos Seus povos vertidas, por nós, lágrimas e mais lágrimas e mais lágrimas, um mar de lágrimas solidificadas por Sua vontade, depositadas para sobre nós verterem, nos consolarem, nos perdoarem.

E nós, o Seu povo, enviámos-lhe uma bomba do tamanho duma máquina de lavar roupa...

2005-06-24

Meu amor

Escrevo com a amargura que me vai na alma que me roi os nervos que me corta cerce as articulações que não resistem à dor intensa que provoca a serrilha que a tua mão tão habilmente maneja que investida atrás de corte rompe a minha carne donde jorra em jacto negro o pus escarlate das minhas veias.

Ranjo os dentes que chiam que libertam chispas sem cor enquanto a dor perfura os meus neurónios e os meus lábios se retorcem num esgar de dor, perfidia intensa, ilógica, dor, dor, dor, não suporto as lágrimas que descem pelos sulcos da minha face e queimam quando o seu sal amargo banha as feridas por ti provocadas, meu amor.

A música

Gostava de ser música, só isso.
Uma nota só, um sol, um dó ou um si bemol.
Guitarra ou piano tanto fazia, saxofone, melodia, distorção com mel ou limão.
Uma nota fecundada ao ritmo dos flancos, das coxas rasgada.
Uma nota franca, transparente, que fizesse tossir de encanto, por vezes de espanto.
E claro, com muita sensibilidade e alguma verdade.

Não é pedir muito.

HOJE

Hoje apetece-me escrever tudo ver tudo o que a escrita fabrica deste lado quando do outro solto os símbolos no plástico electrizado e o magneto os atrai e encanta o negro no branco aqui, deste lado

2005-06-23

King James' Bible

Ando a ler a Bíblia, a versão de King James, a qual parece ter sido a versão standard na Europa, ao longo de mais de 300 anos.

Engraçado, tenho-a há uma dezena de anos quando uma professora, que alinhava pelas suas praxes muito próprias, me obrigou a comprá-la. Não gostava dela, nunca lhe perdoarei a arrogância e o desprezo com que me tratou, a mim, um génio.

Talvez por isso só a comecei a ler o ano passado, aos poucos, sem pressas. Tem muitas páginas, novecentas e tal, as folhas são daquelas finas, tem partes muito aborrecidas e muito gagas.

Também tem daqueles episódios que todos conhecemos, aqueles que ao longo dos tempos cresceram mais que o mundo, como aquele da baleia ou a história dos dois irmãos do Egipto e das águas que se abrem, e Noé, e o resto.

Alguns são cruéis e reveladores, plenos de múltiplos sentidos dizem, mas o que me choca, e já li muita coisa na vida, é a ligeireza incrível com que nos são relatados, por vezes em não mais de dois versículos, tipo Deus acordou para implicar e pronto, e a relevância que adquiriram na nossa cultura judaico-cristã.

Não que isso me preocupe , aprendi a viver com os meus fantasmas, religiosos e outros. E a verdade é que ainda me passeio pelo Velho Testamento e por lá andarei mais uns tempos, ao ritmo a que folheio as folhas.

Enfim, não sei, ando a ler, não li.

2005-06-22

Isto assim não pode continuar

Isto assim não pode continuar!
Assim não pode continuar!
Não pode continuar!
Pode continuar!
Continuar!
!
Continuar!
Pode continuar!

Que remédio...

2005-01-28

AS SESSENTA VIRGENS

Deus estava a fazer a barba. Desde há séculos (literalmente) que todas as manhãs acordava dorido e angustiado e chateado com a vida e ainda por cima despeitado com o Seu mau hálito. Frequentemente sofria de insónias.

Nunca Lhe tinha passado pela cabeça que tudo acabaria assim quando, alguns milénios atrás, tinha aceite aquela missão na Agência Intergaláctica de Amas para Planetas.
É certo que Lhe tinham dito que a Terra era um planeta "classe zero" e que Ele teria que contemporizar com todos os credos e crenças dos seres que aí habitavam. Na altura tinha pensado na missão como um desafio. Hoje em dia, a pior coisa era ter que fingir que não existia quando se cruzava com algum ateu pretensioso, lá em baixo no Céu.

"Toque, toque" - um querubim batia à janela.

- O que é? Não pode esperar? - ralhou Deus enquanto abria uma fresta.

- Deus, o mártir muçulmano que chegou ontem está a ter problemas com as virgens - informou o querubim.

"Os muçulmanos, sempre os muçulmanos" - pensou Deus para com os seus botões. "Esses gajos mais a parvoíce das sessenta virgens". Como é que era suposto esperar que Ele arranjasse sessenta para cada mártir se achar uma já era difícil. Por Ele podiam ir todos para o Inferno, se ao menos o Inferno existisse. Século após século, Ele tinha-se preocupado, e preocupado, e perdido uma eternidade de noites (literalmente) a pensar como havia de contornar a escassez de virgens. Hoje em dia dava dez a cada mártir quando chegavam e mais uma de vez em quando até que eles perdessem a conta.

- Vá lá Deus, o que é que eu faço - insistiu o querubim.

"Essa era outra. Ele tinha sempre que saber o que fazer. E toda a gente O chamava Deus quando o Seu nome verdadeiro era Henrique."

- Ok, Ok, Eu vou ver se ainda tenho algum - respondeu Deus ao querubim.

Deus continuou a fazer a barba, enquanto o querubim se afastava rapidamente levando consigo o milagroso comprimido azul, Viagra, para dar ao mártir.

Harmonia e Honra

Algures, perdido no tempo da minha adolescência, pausando entre Kafka e quejandos, recordo-me deliciosamente de ter lido Xogun de James Clavell, tradução portuguesa claro. Para este conseguido romance, o cunho de best-seller e a adaptação televisiva estavam no adro.

O que livro nos relata são as aventuras e desventuras do (pseudo) primeiro europeu que viveu no Japão, por alturas do Xogunato, imperialismo clássico, onde a defesa da honra e o respeito pela harmonia do outro se equilibravam. Perguntam-me porquê este romance, um best-seller, tão distante do cânone. De facto a sua relevância para esta minha história é diminuta. Dele apenas pretendo um episódio que me ficou na memória, o qual passo a relatar:

"O senhor XY1, inglês, (não me recordo do nome das personagens), é hospede de uma família japonesa, numa casa de paredes de papel, como manda a tradição anti-sísmica das ilhas em causa. A meio da noite apercebe-se que o senhor da casa, chamemos-lhe senhor XY2, samurai dos mais temidos do Japão, perito em golpes finos de espada, se entretém a espancar a esposa, fina flor oriental, a senhora XX. XY1 que não sabia o que era tomar banho mas que era empenhado na arte do cavalheirismo, irrompe pela porta ou pela parede (afinal era de papel), apanha XY2 de surpresa e lança-o para fora de casa, ralhando com ele em inglês, o que para o caso podia ser chinês. A tensão aumenta, XY2 está no terreiro com a mão no punho da sua espada, XY1 está nas escadas a aguardar o golpe que se afigura mortal e a pensar que os portugueses tinham razão quando diziam que "entre marido e mulher ninguém mete a colher" e, por último, XX está de prantos. Ao fim de uns minutos XY2 avança, espada na mão, XY1 treme mas não arreda pé e XX continua de prantos. Final da história, XY2 lança-se aos pés de XY1, que por acaso tinham sido lavados por uma dilecta moça XX2, a qual não é chamada para esta história, e, oferecendo-lhe a espada, oferece-lhe também a vida, porque mais importante que a sua honra (o que ele não diz, mas que se conclui do episódio) é o ter perturbado a harmonia do seu hóspede."

A reacção do japonês é totalmente inesperada para o inglês, o qual não se sentiu minimamente incomodado com o barulho provocado, mas sim com o tipo de barulho. O seu silêncio era algo a que não dava valor e como tal era para si completamente contra-natura pensar que este pudesse valer a vida de um outro homem.

O livro de James Clavell, de uma forma incipiente mas inteligente, conseguiu alertar-me para esta questão básica das diferenças entre o ser oriental e o ser ocidental.

Quantos de nós se preocupam em preservar, em honrar, a harmonia dos outros? Quantos de nós reagiríamos como o senhor de guerra japonês, habituado a traçar com o fio da espada inúmeros conterrâneos, mas envergonhado por ter perturbado o sono de um bárbaro. Os tempos eram outros, dir-me-ão, provavelmente poucos japoneses se comportariam assim nos dias de hoje. E afinal trata-se apenas de um romance.

É claro que concedo esses argumentos, mas o que está aqui em causa é mais que uma banalidade, que um fait-divers, que uma diferença mínima entre duas civilizações. O oriental, movido pelas suas estranhas religiões e credos, aceita-se no silêncio e como tal é aí que aceita, e se aceita nos outros. Para o ocidental o silêncio é dúbio, é sinal de secretismo, indiferença, e como tal deve ser combatido. E se a palavra cria, o silêncio não cria, o silêncio apenas preenche a maior criação da história do mundo, o Homem.

2005-01-17

"MIDIA" CLASSE

"Pondé kugajandará. Secalha foi outa vez pós copos kujorge. Desgrassalha vidinha, põesse os dois nos copos e eu páki a dar ao dedo a lavarlhas truces. Tou fartinha desta treta! E comó gajo chagou ontem! Nãssão exemplos pá criança. Sim kumiúdo tamem anda parvo, sará kugajo nã pracebe?"

"Tou kázachegar. Vamozaver sarrumucarro. Desde kacabaram as férias kisto tá uma bosta kupessoal todo de volta. Nãconsigo arranjar lugar, kamerda! Ela devatár lixada comigo! Mas tamem ké keide fazer? Um gajo dá cabo do coiro a bulir e tamem tem kaproveitar um coche. Bem, ontem té o puto tavólhar pramim de lado..."

"O sacana nunca mais chega. Tou fartinha farta! A cena kele fez noutro dia pra nãir a casa da minha mãe. Como sséla lha devesse alguma coisa. Sei bem ku kugajo caria erarir pró café beber a ver o treta da bola kuzoutros igualinhozaele! Mazeu preciso de companhia. O dia todo páki fechada, sozinha, tenho ka falar kalguém. A minha mãe é kame pracebe. Ela té gostava muitadele. Dáme graça agora kamalembro disso. Tamem ele néra o bezanas kégora..."

"Chiça tékenfim! A gaja nãvai acreditar ke nãtive a beber. Também logoje kecariachegar cedo é katinha kaficar empencado na merda da segunda circular. E depoizesta treta danão conseguir lugar. Sólhar dela. E da mãe. A velha té kera fixe, mazagora parece uma bruxa. Tãcedo nãvolto a pôr lá os cotos! Tamem a filha erumabaril e gora sóssabe mandar. E mandar. É massa e maizuma e maizuma e massa. Um gajo tamem pracisa de descanso né. Nunca mais tenho descanso..."

"Ólhindontem. O gajo só presta pa ressonar. Nãprecebe kuma mulher tem necessidades. E nãssou só eu kudigo kas revistas tamem dizem . É verdade sim senhora! E a kuadrilhona do primeiro direito diz ké todazas noites. Custácrer culingrinhas do gajo dela. Mais uma razão pró meu katé encorpado. Tamem tá sempre kus copos. Sáu menos fossum cadinho romântico, comákele, o Frota..."

"Kando abrir a porta começa lógamandar vir. Já sei koméké! É sempre a mesma merda! O ké keide fazer, foi ela kema saiu na rifa. E té gosto dela."

"Té gosto dele. Kando nãbebe é tão krido, como nuzanos que madeukilo vermelho katé ficou tôood maluko depois deu a pôr. Olhó gájameter a chave à porta. Olhenfiou à primeira, né costume. Deixa-mastar aqui ketinha como se nãdesse por ele.

- Olá filha, correu-ta bem o dia?
- Assim assim e o teu, filho?
- Tamem! Ké o jantar?
- Pescadinhas kurrabo na boca!
- Tá bem, vou só pôr as chinelas, filha.
- Póssapôr no prato?
- Podes keu venho já. Donde tá o miúdo?
- Tá no karto, chama-o.
- Tá bem... olha catá dar bola.
- Vai ver pá sala keu tou o ver a novela, já talevo a comida.
- Tá bem, nãdemores katou cheio dafome!
- Cala-te mazé kaquero ouvir a novela.

" Bem, ao menos parece kanão vem bêbado, olha kagiro, será kestes vão ficar os dois juntos? Esta novela é gira!..."

"Bem, pelo menos parece kajá sesqueceu dontem, olha golo. É penalty, esta merda é penalty."



Escrita e ideologia

O séc XX registou romancistas políticos importantes. Talvez as necessidades da época assim o ditassem. Na América John Steimbeck descreveu a agonia da dimensão humana às mãos do capitalismo. É certo que Steimbeck acreditava nas dicotomias utópicas, nos idealismos, "socialismo", "comunismo" e em contraponto "capitalismo". Mas, pergunto eu, o que nos dão os escritores hoje em dia, em troca das utopias?

Serei eu que ando absorto, adormecido, contente dentro dos meus -inhos? Talvez o seja. Mas será que ainda existem escritores políticos, defensores de ideologias, propulsores das mesmas, com capacidade de motivar multidões e ultrapassar a barreira da política que tão logo os procura absorver?

Não o creio, em todo o mundo serão poucos e assumidamente irrelevantes. Quando um autor disposto a acordar, chocar e quebrar os nossos preconceitos através da sua escrita (falo de Rui Nunes) afirma que tem os leitores que quer, o essencial da sua mensagem é a sua despreocupação em passar qualquer mensagem que seja aos não convertidos. Ora, sempre ouvi dizer que é fácil pregar aos convertidos.

Que dizer dos repórteres encartados que acompanham um exército de invasão? Não constituirão eles uma ameaça ao nosso equilíbrio? E poderemos fugir deles? Hoje em dia lidamos sobretudo com informação ao segundo. Pensamos ter o conhecimento, a sabedoria na sua totalidade, mas a morfologia diz-nos que a totalidade deu origem ao totalitarismo. Não é na totalidade que reside a liberdade, mas sim no quebra do prato da informação em mil pedaços, impossíveis de colar, de reparar, de conciliar.

E nós, pobres leitores, perdidos num meio em que finalmente sabemos da inexistência da totalidade da verdade, carecemos de guias, de pessoas credenciadas, escritores diplomados pela vida que saibam preencher as nossa questões, as nossas indecisões.

Mas numa realidade vivida a plena velocidade, irrespirável para asmáticos, a complexidade atinge-nos em cheio e impede-nos de olhar em frente e reconhecer o certo do errado, se é que tal conceitos existem, ou deviam existir, (não deveriam até ser proscritos?).

Mas será disso que precisamos, de alguém da escrita que nos faça ver o que é elementar no meio de todo o ruído com que displecentemente nos deixamos preencher? Talvez o seja. No entanto o que sinto é um galopar dos acontecimentos à minha frente e julgo ser esse mesmo galopar que impede um escritor de os acompanhar. Acredito que o seja, sei que no mundo se vive a uma velocidade sem rival em tempos idos e que o fundo do poço, negro, está sempre apenas a centímetros de distância.

2005-01-14

O MEU SILÊNCIO

Ébrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver. Fernando Pessoa

Amo o meu silêncio. É aí que vivo, é aí que sobrevivo, que me faço, que progrido. Adoro que mo preencham quando sinto essa necessidade, inteligentemente...ou não. Odeio que mo tentem preencher, forçosamente, quando não o sinto como necessidade.

Sou péssimo a preencher o silêncio dos outros, por isso ser por vezes observado com desconfiança. Neste mundo ocidental que preserva as palavras, as protege e sublima a comunicação acima de tudo, o silêncio é sinal de doença, de maleita, é como estar amarelo de icterícia.

Odeio o artificialismo, odeio chat-rooms, onde a solidão que é o silêncio se vê distraída mas não preenchida. Odeio que o vento assobie na minha chaminé quando tento dormir.

Desespero quando o meu filho me chama a meio da noite, por um copo de água. Mas fico depois languidamente a observá-lo, meio a dormir, preenchendo com a sua imagem o meu silêncio, à luz de uma fraca luz de presença, a qual preenche o seu silêncio, ainda muito igual aos seus medos e incertezas.

No feminino amo o calor e o odor dela, os quais tornam o meu silêncio obsoleto, quando cruza as suas pernas nas minhas e levemente respira de satisfação como um gato muito festejado. Vivo para estes dois parágrafos, para o que se segue, e pouco mais.

Amo os livros. Creio ser este um amor desproporcionado, de parte a parte. São eles que fizeram da minha vida esta epopeia perdida pelos sofás. Mas são eles também que mais profundamente preenchem o meu silêncio e me fazem compreender, entender, reconhecer, amar e odiar a dimensão humana onde inevitavelmente me perco.

Amo os livros e o meu silêncio...

2005-01-13

A angústia do primeiro «post»

Pergunto-me como ultrapassar a angústia do primeiro «post»...

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Ok, ultrapassada.

(Não sei como nem porquê, veio-me à memória uma tarde, largos anos atrás, em que enfrentei uma outra primeira vez com a mesma decisão, empenho (e rapidez)).